20/04/2013

Soldado das trevas


 Mais escuro que a própria noite, o soldado ruma ao seus deveres. Como um sopro na pálida madrugada, ele se deslocava, tão silencioso quanto apenas ele próprio. Não menos humano depois de tudo o que presenciaria e faria, porém tampouco mais robótico e desumano do que já era antes.

 Marchava e lutava em batalha, rumo ao cumprimento de seus objetivos. Sua vitória era iminente. "Por que simplesmente não morro e e me liberto dessa atrocidade?", pensa ele, na destrutiva penumbra. Seu desejo era ser morto. Não por honra,  por desgosto, por estar participando disso, e não ter outra escolha, a não ser assassinar. Não havia, entretanto, tempo para pensamentos filosóficos em meio a matanças e carnificinas em nome de anseios políticos.

 Uma sombra na escuridão, tão negra que até a morte temia-o. Fazia-se mais obscuro conforme cumpria com perfeição os planos. Seu coração foi vendido para o reino subterrâneo, onde pertencia ao supremo do andar de baixo. Seu corpo não mais bombeava sangue, apenas processava ordens. Mais duas, três cabeças. Sua completa negritude apenas absorvia a luz, tornando-o mais escuro do que um apocalíptico eclipse. Mais desalmado se tornava a medida que prosseguia com êxito sua jornada na batalha contra irmãos da própria espécime, separados apenas por nacionalidade.

 Nem os frequentes lampejos ocasionais iluminavam-o, que permanecia dominado pela pretidão. Tampouco as flamas das batalhas acendiam qualquer traço de luz em seu rosto. As cinzas e fumaça da aniquilação, da qual ele era protagonista, apenas realçavam mais seu medonho aspecto. Mais quatro inimigos abatidos. Mais negritude em sua aura que enegrecia seu corpo desalmado.

 Sua vitória era cada vez mais iminente. "Estou aqui, inimigos! Matem-me e me libertem!", gritava ele, em meio a atrocidade da qual ele não poderia ser jamais liberto, até que as incessantes explosões, disparos, gritos e terror cessassem.

 Não era, agora, um ser vivo, um corpo de carne e ossos, uma alma racional e emotiva. Apenas era. Você sabe que ele está ali porque você não o vê, enxergando apenas um espectro. Assim como um buraco negro. Nem a mais forte das luzes poderia iluminar aquela vasta escuridão, que não era nada além de um vulto sobrenatural.

 Sem rosto, sem feições. Apenas preto. Nem o mais profundo escuro do submundo era capaz de deter aquele desprovimento de iluminação. Não haveria inimigo que pudesse abatê-lo, nem adversário presente nas redondezas que sobreviveria para comparecer ao seu réquiem.

 Todos os seus objetivos foram cumpridos. A vitória era deles. "Por que saí dessa atrocidade vivo?" pensa ele, na melancólica destruição humana. Seu desejo era morrer. Não por honra, por desgosto, por ter participado desse ato tão vil. Mas agora era tarde. Sua transformação já estava completa, não lhe restando mais nada. Exceto ser uma sombra vagante a tormentar as pessoas, metamorfoseado eternamente em um soldado das trevas, aparecendo em janelas e espelhos alheios. Apenas em busca de um reflexo da qual possa iluminá-lo novamente.

11/04/2013

Segredo sagrado


 Ciganas, mulheres que não choraram, feiticeiras, judias, hereges. Todos aqueles que agiam em desacordo com os dogmas da igreja. Homossexuais, blasfemadores, protestantes, bígamos. Todos sendo queimados. Há anos sendo inquisidor, realizando o ofício de meu Deus, o único e absoluto. Enviando a alma daqueles infiéis para o soberano do submundo desde 1557, não tenho mais certeza se estou plenamente de acordo.

 Há tanto tempo lutando contra a heresia, muitas bruxas eu já condenara. Todos eles eram realmente bruxos e hereges? Suas condenações foram justas?

 Não sei se é sinal divino ou criação maligna de Lúcifer. Apenas parece que estou perdendo minha sanidade. Fiz coisas que não deveria saber. Não quero mais levantar ao acordar pela manhã. Sei de coisas que deveria desconhecer. Atos que, sem dubiedade, já cedem minha alma á agonia das chamas infernais. O amor que eu tinha no começo, em acusar e julgar bruxas e satanistas, nos últimos tempos, só me trouxe desgosto e um estranho sentimento infeliz. Depressão, talvez?

 O que está aconteceu comigo? Por que tanto desprazer? O que fiz? Tantas histórias presenciei, tantos sigilos tenho. O que me trouxe onde estou agora é o que chamo de "segredo sagrado".

 Poucos meses atrás. "Jeanne Rodriguez, estás sendo acusada de bruxaria perante a corte religiosa. Como você se julga?" assim proclamava eu, perante o altar. A acusada, em prantos, respondia "eu sou inocente! Eu nunca fiz mal a ninguém!". Foi dada a ela uma chance de sobrevivência caso ela delatasse alguma outra bruxa, para esta também ser condenada. Propôs então Jeanne:
 - Apenas posso acusar a tal bruxa se ficarmos a sós, inquisidor.
 - Mas que papo tolo é este, bruxa? - assim disse eu, impaciente.
A acusada não se fez de rogada e prontamente explicou com palavras fajutas, mas que me convenceram. Embora tenham objetado, proclamando "Êxodo 22,18: Não deixarás viver a feiticeira", lá estava eu, com a suposta bruxa, em privado, quando ela abre o jogo. Sem cerimônia, ela começou a se jogar pra cima de mim, com tal promiscuidade que, eu, absinto de prazeres sexuais, não deixei de resistir. "Exorcize a bruxa, Juan Guerrera, queima-me na fogueira", assim dizia Jeanne, despindo-se. Após consumado o ato do coito, fui ameaçado:
 - Sou inocente de bruxaria, e você também é inocente em ter copulado comigo. Vamos manter assim, pode ser?
 - Blasfemadora, feiticeira! - protestei, embora nem eu acreditasse nas minhas palavras.
 - Conto com a sua palavra. - assim escapou Jeanne, da acusação de bruxaria, onde fui obrigado á acusá-la de inocente.

 Esse ainda não é, no entanto, o "segredo sagrado". Foi somente como ele começara.

 No prosseguimento do julgamento, ela foi liberta. Questionado pelos arcebispos e demais inquisidores, retruco:
 - Não se preocupem com nada. Eu mesmo encarrego-me de buscar o vitimizado. E ela não era bruxa de qualquer jeito. - respondi, de forma vaga e um tanto distante. Imediatamente parti em busca de Jeanne. Alguma coisa me fez ir rumo a ela. Apenas posso estar possuído pelo demônio, mas sei que não é isso. Algo me domina. Preciso vê-la. Procuro-a pela cálida tarde ao redor do vilarejo, perguntando aos moradores da região. Já cansado, franzindo a testa enquanto transpiro debaixo da forte onda de raios solares, consigo enfim as coordenadas da morada de Jeanne.

 Encontro-me diante de sua porta, e em instantes, lá está ela. Minha aura acende pelo lampejo de sua presença. Rudemente, ela pergunta "O que o senhor deseja?". Respondo-lhe, mesmo impondo-me à todas as minhas convicções e ao Senhor, declaro meu desejo por ela. Talvez aquele acontecimento sexual mexera com minhas emoções. Queria-a. E assim fazia questão de objetivar, pois por dias e dias fui-lhe até a porta para que me concebesse uma chance. Até que um dia ela não fechou a porta brutalmente em fúria, muito pelo inverso. Começou a sorrir. E agarrei-a, saboreando seus lindos lábios, em volúpia.

 Nosso amor, por muito tempo, fora recíproco. Todavia, um dia ela adoeceu.

 Sem pestanejar, fui a mando dela ao bosque, seguindo suas instruções, em busca da cura. Até que deparei-me estar envolvido no tão terrível segredo. Oh, meu Deus! Eu estava tão abalado em estar traindo a mim mesmo, a Deus. Por que eu apenas não rezara? No entanto, estava me sentindo tão vivo! Estava extasiado. Eram emoções opostas. Queria apenas salvar minha amada. E finalmente cedi à blasfêmia. Sou completamente um herege, um hipócrita, traindo ao Pai. Estava oficialmente tornando-me um bruxo! Tudo em nome da insana paixão, onde faria qualquer coisa para trazer saúde e vigor de volta para minha angelical Jeanne. Colhi as plantas e ervas necessárias, reuni os ingredientes demandados e realizei a poção de cura, em meio ao jardim. Tudo conforme seus ensinamentos.

 Porém, agora, amarrado a esta tábua de madeira no altar, nada mais me resta do que remorso. A heresia reinou perante meu coração cego, e não adianta negar nada mais, apenas me render ao tormento eterno. Agora tudo é inútil.

 Ciganas, homossexuais, blasfemadores. Há anos, todos os dias, alguns tiveram sua vez. Hoje a vez é minha. Sou o próximo a ir a julgamento. Fui flagrado e capturado no bosque, após terminado o preparo do remédio. Eles observavam o segredo tudo desde o começo, escondidos sob os arbustos. Estavam lá a mando de Jeanne. Deveria eu desconfiar de sua farsa desde o começo. Pelo o menos ela também está sendo julgada. Por outro inquisidor, de certo. Agradeço ao desconfiado Sanchez, amigo cardeal que a capturou também. Nunca deveria ter confiado naquela suja e traiçoeira bruxa Jeanne. Ei de reencontrá-la em breve, nas flamas agonizantes e incessantes do inferno.

04/04/2013

Ao meu eu do passado

 A mensagem abaixo foi escrita pelo meu eu do futuro para o eu do presente. As palavras são de um futuro ainda não definitivo. Ou seja, em um futuro que ainda não aconteceu, e nem necessariamente irá. Mas que pode acontecer.

 "Olá, eu do passado. Apesar de ti ter vivido do ócio e da procrastinação durante toda a sua juventude, gostaria de dizer que o filme da sua vida teve um final feliz. Apesar de ter alimentado o seu sedentarismo enquanto entupia-se de chocolate acessando compulsivamente o Facebook; apesar de ter mantido as mãos coçando a região testicular por extensos períodos de tempo quando devia estar botando-as na massa (mas sem ter beliscado o escroto antes), gostaria de dizer que sua vida teve uma reviravolta. Embora tenha vivido com pouco regojizo, muito imediatismo e conformismo, a cena "Fim" da sua trajetória terminou com uma música alegre e de alto astral, enquanto a câmera lentamente diminui o foco, enquadrando uma linda paisagem e terminando com um fade-out.

 Seus inúmeros interesses, de gosto pelo desconhecido, de sair da zona de conforto e evoluir como indivíduo, foram essenciais para sua jornada à prosperidade, embora você nunca pensaste muito no seu futuro profissional e econômico.

 Apesar do seu medo de abordar as garotas e e incapacidade de conquistar as mulheres, gostaria de dizer que você finalmente encontrou seu amor, sua alma gêmea. Gostaria de dizer também que você, apesar da sua falta de pró-atividade, alcançou posições no seu emprego que, além de te dar muito dinheiro, também lhe oferece muito prazer, pois você se diverte e ama o que faz. Gostaria de dizer que a sua vida amorosa vai muito bem, seu salário é bom e estável, sua vida pessoal é maravilhosa, graças ás suas constantes conquistas, sabedoriaseu crescimento pessoal e corpo e mente são.

 Mas, principalmente e muito importante, gostaria de dizer que tudo isso é verdade.

 Gostaria de dizer que tudo isso aconteceu, mas não aconteceu. O ócio e a procrastinação que consumiu sua juventude foi de grande valor. O filme da sua vida é abdicado de clichês convencionais. Pois o final não é feliz, e a cena "Fim" foi dolorosa e lenta para o telespectador. Grande merda foram os seus interesses, sua busca pela sabedoria e conhecimento, e todas essas homoafetividades. Na hora de procurar um emprego, você se fodeu. Sabe qual é o teu emprego? Câmera-man de filme pornô. Como isso pode te deixar feliz? Além de não te dar muito dinheiro, você só está filmando o prazer, e não participando dele. Assim como foi com a sua vida inteira.

 Seu medo de rejeição e a sua falta de iniciativa em se desafiar e errar para evoluir e aprender foram fatores essenciais para teu fracasso. Apesar de você ter tentado superá-los, de nada adiantou. O "amanhã eu falo com ela" nunca veio, porque ela foi embora, enquanto você ficou preso ao "hoje". Você se casou, no entanto. Mas sua mulher não te respeitava. E te largou quando soube que você chorava vendo fotos da sua antiga paixão, a Beatriz.

 Sua família é desestruturada. O relacionamento com seus pais ainda são uma merda. Você comprou seu sofá nas Residências Jamal, sucessora das Casas Bahia, que faliu após a crise econômica de 2018. A academia que você queria tanto fazer ficou apenas nos planos. Você agora está obeso, seu corpo e mente estão uma bela montanha de defecação jurássica. A guitarra que você tanto procrastinou para aprender não te levou a lugar nenhum. Seu crescimento pessoal? Você engordou mais de quarenta quilos.

 Agora estou fudido, por sua causa, enquanto seus filhos assistem Big Brother. Sim, você teve filhos e BBB ainda existe. É contigo decidir qual dos dois é pior.

 Você mal sabe cozinhar, trocar uma lâmpada ou educar seus filhos. Tudo porque seu psicológico foi massacrado durante todos esses anos. Escreveria mais, no entanto tenho que dormir. Amanhã cedo gravarei "Bárbara Sápi e o ET super-dotado". Roteiro por Valeska Popozuda. Sente o naipe. Enfim... a mensagem que quero passar é:

 Até quando você vai parar de deixar para amanhã o que se pode (e deve) fazer agora? Daqui há um ano você desejará ter começado hoje, portanto, comece agora. Mexa esse cu gordo da cadeira e, assim que terminar de ler isso, faça algo para mudar seu futuro, e mudar o meu presente. Esse lixo que você me fez tornar não pode continuar existindo.

 Carinhosamente, ao meu eu do passado"

 É... acho que é melhor eu começar a colocar em prática os meus planos.

17/03/2013

Hoje é um dia estranho


 O primeiro pensamento que nos acende ao despertar. "Que estranho". O seu quarto escuro, as janelas fechadas bloqueando o céu nublado. Desagradável.  Um sentimento desconhecido invade nossa mente, que se abraça em um mar de confusão. Porque hoje é um dia estranho. Até ontem tudo estava normal, a face do dia estava bela, angelical. No entanto, hoje ela está diabólica, deformada. Hoje, você foi abduzido por alienígenas, sua imaginação lhe diz. Sua família foi raptada, você está em um universo paralelo onde moras sozinho e sua vida é diferente, com distintos costumes e horários.

 Você acordou 3 da tarde, com um clima melancólico, nebuloso e com garoas. Você se sente tão estranho. Afinal, o dia também é estranho. Que horas são? Você se sente em Silent Hill. Só resta a densa névoa e enfermeiras assassinas. Cadê o almoço? Ninguém em casa. Desconheço o paradeiro de todos.

 O clima gelado dessa atmosfera melancólica alimenta seus pulmões desorientados, procurando respostas para o enigma desse dia, tão incomum. Até ontem o ar seco e o céu ensolarado clareavam seu sorriso naquele dia de praxe. Hoje, os ventos velozes são o único barulho destacáveis perante o silêncio da sua residência. A única sonoridade audível além da brisa lá fora são os murmúrios na sua mente confusa.

 Todos os eventos, os fenômenos, tão comuns, sucedem de forma diferente ou inversa, isso se ocorrem. Se é costumeiro despertar ao som da televisão na sala, com algum familiar assistindo sempre o mesmo programa; hoje, um dia estranho, ele não está lá. Até ontem isso ocorria diariamente. Oito horas da manhã é o rotineiro horário de interromper seus sonhos, quando a luz da nossa estrela ilumina seu quarto. Mas não hoje.

 Que dia é hoje, afinal? É Quarta ou Sábado? Que horas são mesmo? Onde estão todos? Essas datas incomuns sempre aparecem, cedo ou tarde. Todos os padrões se alteram nessa estraneidade  Não se sabe se são seis horas da manhã ou dez horas da noite, até você ver o dispositivo mais próximo que mostre o horário. Se você está vivo ou morto, preso a uma realidade paralela. Se você está sonhando, criando um mundo alucinógeno dentro da sua mente. Não se sabe se todos estão planejando um complô contra você, conspirando contra a sua existência. Mas isso não mudará nada, porque hoje é um dia estranho.

29/01/2013

Estamos sempre perto da morte

tumblr_mhdgpyWv2E1rpgyx5o1_1280
Estamos sempre tão perto da morte. E ela está sempre perto de nós. Apenas esperando o momento preciso para carregar nossas almas para o submundo dominado pela obscuridão e não-existência. Apenas mais alguns centímetros. Um passo em falso na ponta de um penhasco que, em apenas mais alguns centímetros, ocasionaria uma queda brusca metros abaixo, e consequentemente, o óbito. Mas não ocorreu. Apenas mais alguns segundos. Um transeunte, antes parado na calçada, começa a caminhar e que, em apenas mais alguns segundos, seria atingido por um carro desgovernado. Mas não foi.

Estamos sempre tão perto da morte. O teto pode desabar repentinamente sobre você, seu corpo ou algo perto de você pode entrar em combustão instantânea, algo pode explodir e ser arremessado diretamente em seu rosto. Você pode ser picado por alguma aranha venenosa mortal, seu coração pode parar de palpitar mesmo você sendo fisicamente saudável e insuficiência cardíaca ser um acontecimento improvável na sua idade. Tudo e mais um pouco pode acontecer, mesmo sob as menores e mais inverossímeis probabilidades.

Estamos sempre tão perto da morte. Poderia ser qualquer dia, qualquer ocasião. Atravessar a avenida, atravessar uma ponte de madeira, tomar uma ducha, tomar uma bebida, dirigir uma moto, voar de avião…

Atravesso uma rua sem olhar para ambos os lados. Cuidado, um desconhecido berra. Agilidosamente, pelo susto, regrido dando um ou dois pulos, enquanto o veículo passa pelo meu lado, buzinando, ainda na mesma velocidade. Aparentemente o motorista não se importaria em parar. Me alivio, foi só um susto. Ainda estou vivo. Apenas mais uns segundos. Apenas mais alguns centímetros. Se a pessoa não tivesse me alertado, poderia ter sido atropelado, arremessado alguns poucos metros, mas ficaria bem. Ou bateria a cabeça no chão, mas também ficaria bem, apenas um pouco atordoado e com dores. Ou seria atingindo violentamente pelo automóvel, sendo levado para o hospital. Mas com sorte, liberado em 1 ou dois dias. Ou o carro fatalmente me atropelaria, me arremessaria alguns metros no chão, eu bateria a cabeça, seria levado para o hospital, e pereceria devido a traumatismo craniano, falência múltipla dos órgãos e perda excessiva de sangue. Mas me alivio, foi só um susto.

Foi o dia em que estive próximo da morte. Assim como todos os outros, apenas de diferentes maneiras.

A morte estará sempre perto da gente. E estaremos sempre perto da morte. E um dia, ela se aproximará demais. Atrás, na frente, dos lados, ou em cima. Pode ser você, ele, aquele, eu. Qualquer um pode ser a morte, apenas esperando a sua hora de agir. Aguardando o momento para estar perto demais e me levar.

15/01/2013

O ceifador


 Maíra acordara cedo naquela manhã de Domingo. Era a voz serena de Izrael, seu irmão caçula de 6 anos, sutilmente se aproximando de sua cama, que a desperta. Não era apenas mais um sonho, era de fato ele. A garotinha ruiva de 9 anos já expressava um contagiante sorriso e euforia. Há muito que os dois não se viam. A última vez que se encontraram foi há um bom tempo, em um bonito e grande campo, com gramas aparadas, flores em abundância, além de placas de pedras estranhas por todos os lados, fixadas em pé sobre a terra. Maíra não entendia bem o que aquilo era.

 E era para esse campo onde Izrael iria levá-la. "Por que vamos pra lá?". Seu irmão retruca "Porque é lá onde estou morando agora". Finalmente iriam brincar, ser irmãos juntos novamente e matarem a saudade, assim pensava Maíra. Era um grande presente de aniversário pra ela.

 Os pais de garota não estavam de acordo em deixá-la ir para aquele local. Rejeitaram tal ideia após Maíra perguntar pela permissão deles. O pai temia que isso já começasse a ser sinal de insanidade. Diante da rejeição deles Izrael prontamente acalmou seus pais. Como ainda eram sete da manhã de Domingo, ambos os pais tinham acabado de acordar. Izrael gentilmente os colocou para dormir. Por um bom tempo. Sem que eles o vissem, claro. Não queria causar nenhum choque após tanto tempo se verem. Maíra não entendeu o que acontecera, mas seu irmão o assegurou que eles se reencontrariam. Em breve.

 Acompanhada por seu irmão, Maíra foi guiada por ele até o campo. Enquanto andavam, Maíra se dirigia a ele de forma contagiante. "Sabia que eu sonho direto com você, irmãozinho?" "Eu sei". To tão feliz de te ver de novo, Izrael, dizia Maíra. Ele retrucava de forma pouco amistosa. "Por que estamos indo praquele parque?". "Não é um parque, é um lugar pras pessoas descansarem e terem paz", explica o irmão. Ainda não estava claro para ela, mas estava contente e animada. Estava matando a saudade. "Você fará 10 anos amanhã, certo?". Sim, responde Maíra. Ótimo, ainda há tempo, dizia ele para si mesmo.

 A caminhada debaixo do banho de sol daquela manhã de céu limpo não impediu os dois de chegarem ao local, com pedras cravadas em pé por todo o lugar. Maíra ainda não saiba muito bem o que estaria fazendo lá. Izrael mandou-a deitar. "Vamos descansar um pouco aqui". Descansar? Maíra pensara que iam brincar. Relutante, ela se levanta, mas ele a derruba com hostilidade. "Descanse!", ele ordena. Maíra fecha os olhos, amedrontada. "E agora?", pergunta Maíra. Antes que pudesse esperar por uma resposta, a garota ruiva sente uma agonizante dor no peito, arregalando os olhos e berrando em sofrimento. Sua visão turva vê Izrael, com um sorriso maléfico, cravando uma faca com marcas de sangue nela.

 "Eu estava com saudades, então vim te buscar, irmãzinha" dizia enquanto ela adentrava o outro lado. "E desculpa pela faca suja, eu não tive tempo de limpar após colocar seus pais pra dormir também. Bem vinda ao meu lado, Maíra, agora vamos ficar juntos! Você, eu, a mãe e o pai!" Assim discursava Izrael. Ele se levanta, após ter cumprido o seu objetivo. Em um dia em que não se foi morta apenas a saudade, ele segue rumo de volta á sua pedra, onde esculpida nela dizia a frase "Que descanse em paz eternamente no reinado de Deus, Izrael."

28/12/2012

Um dia de cair o cu da bunda


 Encontrei um velho amigo hoje na rua, que há muito tempo não conversava. Rafael. Não o via há uns 2 meses, desde que eu e ele, junto com mais uns amigos, fomos até a casa de um camarada nosso assar umas pizzas, beber, jogar Playstation 3 e se divertir.

 Perguntei o porquê dele não ter dado nenhum sinal de vida desde aquele dia.

 Rafael respondeu que saiu do hospital há umas semanas atrás, por ter sofrido um prolapso retal. Ou seja, não querendo ser rude, mas ele cagou o cu. Tipo assim, literalmente. O intestino dele foi expurgado pra fora. Nem queira imaginar a cena. Provavelmente por causa da frase anterior você deve estar imaginando. Não foi minha intenção.

 Ele disse que aconteceu isso depois que foi pra casa no dia do rolê da pizza. Todos passaram mal naquela noite, exceto eu. Isso que fizemos uma pizza enorme, super calórica, pra ter um AVC. Porém, pro meu azar, nos meus pedaços de pizza tinham alguns fiapos estranhos de frango que enroscavam na minha garganta, como se estivessem crus. Era horrível.

 O fato é que esse incidente do prolapso trouxe sérias consequências pra Rafael. Seu intestino teve que ser recolocado pra dentro por meio de cirurgia, sem contar as sequelas psicológicas, a humilhação. Disse ele que não consegue cagar sem ficar aterrorizado pensando que o cu vai soltar de novo. Qualquer peidinho ele já se desespera. "É de cair o cu da bunda mesmo", brinquei, sem conseguir segurar a risada. Agora já não tenho certeza se ele achou muito engraçado. Ele afirma que fica pressionando-o constantemente. Sabe... pra mantê-lo BEM FECHADO, evitando qualquer risco de escapar novamente. Ele está paranoico em perder o rabo pela segunda vez.

 Eu disse que tinha que ir andando, e que mais tarde conversava com ele pelo Facebook. Nos despedimos. Em tom de brincadeira, falei, já seguindo meu rumo: "vê se coloca uma coleira nesse seu toba pra ele não escapar de novo! Coloca um cadeado nesse cu aí!". Me virei pra minha direção, rindo. Agora já não tenho certeza se ele achou engraçado.

 Mais tarde, de volta pra casa, entrei no Facebook e lá estava ele no chat. Começamos a bater papo, e a relembrar de nossos rolês. Rimos bastante, a conversa foi bem fluente e descontraída. Rafael então decide confessar algo que ele fez naquele dia da pizza. Aqueles fiapos de frango que enroscavam na minha guela não estavam crus, e nem eram fiapos de frango. Eram pubianos dele. Ele foi no banheiro, cortou e, sutilmente, colocou os pelinhos escrotais dele na porra dos meus pedaços de pizza. Enquanto ele ria, eu me enfurecia, o ofendendo até o fim do universo. Inventei tantos xingamentos que eu devia ir pro Guinness Book. No final, nós dois rimos bastante. Eu ainda estava puto, mas no fundo eu ria.

 Aproveitando a situação, com os risos, a descontração e a confissão de Rafael, decidi por as cartas na mesa e falar. Falar que eu era o único a não ter passado mal naquele dia da pizza porque eu fui quem botou purgante na pizza e na bebida de todo mundo. Foi por isso que todo mundo passou mal, exceto eu. "Você evacuou o cu porque na sua bebida eu coloquei o dobro de laxante", eu disse, rindo alto enquanto teclava.

 Após isso, ele ficou quieto. De repente, me veio a mensagem: "SEU FILHO DA PUTA, VAI TOMA NO CU". E imediatamente em seguida: "Rafael não está no bate-papo...". Fui visitar o perfil dele. "Página não encontrada". O perfil não existia mais. Fui bloqueado. Agora não tenho certeza se ele achou aquilo muito engraçado. E nem se ainda sou amigo dele.

21/12/2012

O meu fim de mundo perfeito


 O mundo não acabou. Mas muitas pessoas ainda torcem ou acreditam no fim do mundo, aceitando ou criando teorias e boatos bizarros, como o alinhamento de planetas que causarão catástrofes, fazendo entrar em erupção vulcões mega caralhentos, ou a aproximação de um suposto planeta errante chamado Nibiru, ou até mesmo cometas e terremotos catastróficos na Terra, mais violentos que Brasilândia.

 Todos esses boatos e teorias apocalípticas já foram desmitificadas pela NASA, então podemos estar tranquilos. Por enquanto. Afinal, ainda estamos aqui. Mas, e se o mundo acabasse? Melhor ainda: e se você pudesse escolher como iria acabar a nossa existência?

 Esqueça esse papo de chuvas de meteoros, aquecimento global, ou extinção em massa com guerras nucleares. Pessoalmente, o meu fim de mundo ideal teria o seu começo relacionado ao LHC, o Grande Colisor de Hádrons. E o que é isso? LHC é um acelerador de partículas, com 27 quilômetros de circunferência, há mais de 100 metros abaixo do solo. Ou seja, o bagulho é GRANDE PARA CACHORRO. Provavelmente bem maior que sua cidade. O que essa prexeca faz? Ela faz uns bagulho aí relacionado a partícula, massa, universo... papo de cientista/astrônomo/astrofísico.

 E por que tudo começaria nessa super perimboca científica? Porque, meu caro, essa engenhoca poderia criar um buraco negro que poderia sair por aí botando pra fuder, destruindo e engolindo a gente em questão de milissegundos. Não sei se isso foi comprovado ou se foi desmentido, mas vamos tomar como um fator ALTAMENTE PROVÁVEL.

 E aí que o negócio começa a pegar fogo. Em um dos vários experimentos do LHC, um teste começa a ser realizado no acelerador de partículas. O objetivo é grande, e embora pareça um pouco arriscado, tudo aparenta estar sobre perfeita ordem... quando a porra toda começa a explodir pelos ares, criando um buraco negro de proporções catastróficas. O buraco negro começa a se expandir lentamente, aos poucos, sugando os físicos, as pessoas, os vermes na terra, as árvores, tudo. Em segundos, o mundo começa a virar uma grande bola distorcida, sendo vaporizada pouco a pouco, eternamente para o nada.

 Ao mesmo tempo, abre-se uma fenda no espaço-tempo dimensional, e portais do passado começam a se abrir por todo o planeta, começando a cair guerreiros romanos e dinossauros desses portais. Os guerreiros começam a atear fogo nas cidades sem nenhuma razão, até porque são guerreiros. Os dinossauros passam a aterrorizar o mundo inteiro, comendo a cabeça das pessoas sem misericórdia. Paralelo a todos esses acontecimentos, os humoristas de internet continuam a fazer piadinhas no Twitter e frases retardadas em imagens sem nenhuma relação no Facebook. As pessoas começam a se estrangular, a cometerem suicídio, a roubarem gasolina sem nenhuma aparente razão, a lutarem por estoque de alimentos, e invadem usinas de materiais tóxicos e radioativos pensando que eram fábricas da Dolly.

 As forças militares de todo o mundo tentam em vão lutarem contra os dinossauros, que agora estão equipados com metralhadoras AR-15 sob seus braços, graças a explosão do LHC e a invasão das fábricas de radiação, que tomou conta de toma a atmosfera global. Os guerreiros romanos também ficam mais fortes e poderosos do que nunca, com braços de titânio e espadas e armaduras de ouro; e começam a aniquilar os dinossauros, mas como são guerreiros, começam a matar também as pessoas comuns, inclusive o exército, pensando que são todos inimigos. E claro, Julio Cesar aproveita pra dar mais uma rapidinha na Cleópatra.

 E enquanto isso acontece, Gordon Freeman luta para nos salvar, mas não sabemos se ele conseguiu porque o Episódio 3 ainda não foi lançado. Mas sabemos que ele tem pouco tempo, pois o buraco negro continua se expandindo, sugando tudo aos poucos, enquanto o G-Man aparece do nada pra ficar falando umas merda sem sentido pra ele. Mas provavelmente no fim os romanos ganham como sempre, conquistando tudo. E um super portal gigante se abre, ao mesmo tempo que o buraco negro o engole, criando um paradoxo temporal. Esse portal, mesmo assim, acaba enviando o planeta para o passado em um universo paralelo, onde lá o humano estará fadado a cometer os mesmos erros que sempre cometeu. Até que o mundo acabe. Mais uma vez.

 E pra você? Qual seria seu fim de mundo perfeito?

15/10/2012

Nem todos deveriam votar

 Você é favor do voto obrigatório? Se estamos numa democracia, onde que entra a coerência da mesma se eu sou obrigado a votar? E não me venha com esse papo de "dever civil", que é meu dever votar pelo candidato em que confio (ou como dizem os idiotas, "votar pelo candidato menos pior"). Porque é sempre a mesma bosta de touro do tipo "exerça seu direito, vote", ou "escolha o candidato menos pior". Ora, se é pra exercer meu direito, por que eu não tenho o direito de NÃO ir votar? Se é pra escolher o menos pior, não é mais fácil não escolher nenhum dos dois?

 Chega a ser assustador ver a mesma linha de raciocínio ultrapassada em toda época de eleição, com jovens defendendo seu "dever civil" de votar pela sua cidade, pelo seu país, inundando o Facebook com mensagens e boatos falsos desmitificados há muito tempo, como o velho caso de que se mais de 50% dos votos forem nulos a eleição é anulada e é refeita com novos candidatos. As pessoas que acreditam nessa idiotice são as mesmas que provavelmente engolem as conversas fiadas dos políticos, e são as mesmas pessoas que são encorajadas a votar. É esse o Brasil que os pró-voto querem tanto que vá votar?

 Claro, eu sei, o voto no Brasil é obrigatório, mas isso não te impede de não ir votar. De fato, saber que se você não ir votar, basta justificar a ausência e pagar uma exorbitante multa de TRÊS reais, te encoraja ainda mais a ficar em casa coçando os testículos.

 Nem todos deveriam votar. Se o voto fosse facultativo, talvez as coisas seriam um pouco diferentes. Nenhum país sério que se diga ser democrático obriga os cidadãos a fazerem qualquer coisa. Portanto, se você, jovem, que já não tem esperanças por um Brasil melhor, e que também não liga pra esse país, e nem sabe o que faz um parlamentar, não devesse ir votar, afinal, é melhor do que votar nulo. Porque votar nulo é idiotice. Você só está dando seu voto para o candidato vencedor. E você não confiaria no povo pra eleger um candidato, né?

 Agora, eu admiro essas pessoas super otimistas que batalham por um país melhor, como o pessoal do Movimento Brasileiro Anônimo. Tem que ter um pensamento positivo surreal para querer melhorar um país, cujo é feito de pizza e Coca-Cola num sabadão de calor, assistindo o último capítulo da novela enquanto comenta sobre a tabela do campeonato estadual.

 Você vota porque é obrigado, não porque se importa ou se informa sobre política. Até porque você não sabe nada. O que faz um deputado estadual? Quantos deputados federais têm por estado? Você analisou as propostas de cada um e de sua vida política antes de votar? Aposto que não. Assim como a maioria que votou por votar. Porque foram obrigadas.

 Em um país onde voto é obrigatório e o direito da mulher de realizar o aborto é criminalizado, acho que nem todos deveriam votar. Afinal, se eles votam sem o menor compromisso, não votar, justificar a ausência e pagar uma multa de três reais é bem mais vantajoso.

 Esse vídeo sintetiza com bem mais objetividade e clareza o meu ponto de vista:

12/10/2012

A maravilhosa infância nada tão especial


  Estava divagando nesse texto sobre saudosismo, o quanto a maioria dessa galera que não perde uma oportunidade de pagar de babaca relembrando fatos de uma vida que, afinal, nem foi tão boa assim. Leia-o, pois gostaria de continuar o assunto, falando da minha infância, já que é hoje é dia das crianças.

 Acrescentando com o que eu disse no texto em questão, não vejo problema em relembrar esses fatos, é sua própria vida, recordar belos momentos é sempre prazeroso. Mas com esses saudosistas imbecis é sempre a mesma coisa. Exaltando a maravilhosa infância que tiveram, relembrando de brinquedos, desenhos animados, filmes, brincadeiras, novelas, séries, o primeiro beijo, fatos da escola, doces que comiam. Como se a infância fosse algo mágico, livre de obrigações. Não é. E repare que todos que dizem "como era bom ser criança, não tinha nenhuma obrigação" são os mesmos que não conseguem ficar com menos de 3 DPs no final do semestre.

 E por que todo mundo precisa relembrar tanto assim a magia da infância e exaltá-la e falar que na época dela as coisas eram melhores? Se a infância e a época de todo mundo foi a melhor... alguém teve que ter tido a pior. Então, talvez seja apenas uma mentira pra apagar uma infância que não foi tão boa assim. Talvez sejam apenas adultos frustrados que não estão preparados para serem adultos. E além dessa pessoa ficar se iludindo relembrando falsas memórias de uma infância cretina, que necessidade é essa de reclamar da juventude atual? Não que eu tire a razão dela, mas como esse tivesse tido alguma moral.

 Talvez ela tenha se esquecido que mostrava o pipi pro colega debaixo da mesa na creche e que ficava com nojo quando alguma menina dava um beijo nele. Eu não esqueci. Até porque é verdade. Exceto que eu não fiquei com nojo, mas a menina nunca mais olhou pra minha cara.

 No entanto, pra eu estar falando isso, devo ter tido uma infância maravilhosa e superior a todos, não é verdade? Sim, é verdade. Ou seria, se eu fosse o filho de Odin, ou de algum deus nórdico ou sei lá.

Símbolo oficial da sua juventude estúpida

 A verdade é que eu era chato quando criança. Um pau no cu. Não gostava de Cavaleiros do Zodíaco, de Castelo Rá-Tim-Bum e nem de pintar as pessoas com canetas nos livros. Não gostava de Yu-Gi-Oh, Bleyblade e Pokemón, e também não achava graça quando a professora fazia menção á genitália feminina ou masculina. Não gostava de Os Padrinhos Mágicos, Kinder Ovo pra mim era supervalorizado e não achava graça nenhuma em parques temáticos. Nunca aprendi a empinar pipa e nunca vi graça em um pedaço de papel navegando contra o vento, e também nunca aprendi a fazer o carro do Batman com elástico. Nunca aprendi a fazer um monte de coisas, e ainda não sei até hoje.

 Nunca apanhei simplesmente porque meu pai queria. Ou seja, todas as vezes que eu levei uma boa surra tinha um motivo. Nunca trabalhei, nunca "sofri bullying", e mesmo que tivesse sofrido não me humilharia pra proclamar tal patética frase. Nunca sofri abuso sexual, nunca fui explorado, não recebi a melhor educação do mundo, mas também não nunca fui desrespeitado pela família.

 Foda-se a minha infância e a de todos que hoje ficam por aí discursando com saudosismo a maravilhosa infância que tiveram, só porque assistiam TV Colosso todos os dias enchendo o rabo de salgadinho, e que hoje ficam reclamando que não recebem aumento.

"Você não teve infância". Verdade, já nasci com 14 anos e pelos pubianos. Não tive infância porque nunca fiz determinada coisa é o mesmo que dizer que eu nunca tive um pênis porque nunca transei. Na verdade, quando eu tinha seis anos, fui explorado e servido de trabalho infantil pra fabricar tênis da Nike e apanhar diariamente do meu pai bêbado quando chegava em casa após 12 horas de serviço intenso, tudo isso porque eu nunca assisti Castelo Rá-Tim-Bum.

 Não digo isso porque tive uma infância frustrada, e que hoje sou um infeliz bastardo querendo descontar. Não tive uma infância ruim. De fato, tenho memórias de momentos muito bons, que ainda gosto de recordar ás vezes. Mas não viajei para galáxias distintas, atravessei dimensões paralelas em portais magnéticos e nem descobri uma nova forma de diagnosticar doenças cancerígenas com oito anos que revolucionou a ciência. Não fiz nada de tão extraordinário para ficar relembrando dela há todo instante. Não salvei milhares de pessoas sozinhos de uma enchente antes de ter chego a puberdade, pra me vangloriar de uma época que eu pensava que sexo gay era dois homens batendo o pinto no do outro.

 Enquanto alguns discursam sobre a duvidosa mágica infância que tiveram na Terra do Nunca, onde Peter Pan realizava orgias com a Alice do País das Maravilhas e os Três Porquinhos; eu prefiro encarar a triste realidade e aceitar o fato de que ela não foi tão mágica pra ser motivo de constante nostalgia e devoção.